Agatha Christie traz o frescor do verão em Um Mistério no Caribe

“Você gostaria de ouvir uma história de assassinato?”

Ao ouvir essas palavras, Miss Marple passa a conceder - verdadeiramente - sua atenção às sentenças proferida pelo Major Pelgrave. Durante todo o tempo da conversa, ela fingia prestar atenção enquanto repensava eventos passados de sua vida. O ápice da história contada pelo homem fixa-se no fato de ter uma fotografia do assassino na carteira. O problema é que o Major interrompe-se ao avistar alguém por cima do ombro de Miss Marple. No dia seguinte, aparece morto.

A princípio, a viagem foi feita para descansar e cuidar do reumatismo. Miss Marple precisa deste tempo depois de se envolver em várias resoluções de crimes em St. Mary Mead, o pacato - talvez nem tanto - vilarejo onde mora. Em sua idade avançada, a detetive amadora mais amada dos fãs de Agatha Christie aceita o presente do sobrinho e embarca para o Caribe: um lugar tranquilo, com muito sol e belas praias. Para convencer a tia, Raymond traça todo o roteiro, pensando, claro, na calmaria e momentos de tranquilidade para a tia.

Os eventos no Hotel Golden Palm naturalmente despertam a curiosidade de Miss Marple, que entra em ação rapidamente para descobrir o que aconteceu. Com uma trama sem a presença de policiais dentro da ilha, a detetive consegue se sobressair e mostrar todo o seu potencial em cena, o que pode ficar escondido em alguns outros livros.

O enredo de Um Mistério no Caribe desenvolve-se dentro das margens da pousada ambientada. No local, os leitores são apresentados a uma gama de personagens com as mais diferentes personalidades. Há os casais que andam sempre juntos, Edward e Evelyn Hillingdon e Greg e Lucky Dyson, os donos do hotel Tim e Molly Kendal, o já debilitado senhor Rafiel e seus cuidadores, Esther e Jefferson, além da equipe da pousada. Corriqueiro de Agatha Christie, parece não existir motivos para o assassinato do Major Pelgrave e, inicialmente, parece improvável que algum dos personagens consiga ter atrativos o suficiente para cativar o público. Essa estratégia da autora, que pode ser vista também em outros romances, torna todos os nomes suspeitos por suas histórias de vida, frases pontecialmente preconceituosas e disruptivas com a realidade.

O mistério - ou os mistérios - são desenrolados à medida em que as investigações não oficiais se desenvolvem. Com sua habitual sagacidade, Miss Marple passa a conversar com todos os hóspedes de forma rotineira enquanto tece seu tricô. O método de apuração dela é, justamente, esse. Com um grande poder de dedução e o lema de sempre desconfiar de todos, Miss Marple consegue pegar até os mínimos detalhes do que é dito.

Isso somado ao ponto de suas técnicas de bisbilhotagem, rendem até algumas cenas engraçadas ao público. Apesar da maior liberdade, é possível sentir Miss Marple um pouco mais insegura e não tão animada como em eventos anteriores. Isso pode ter sido colocado para escancarar a saudade de casa sentida pela senhorinha.

Na narração, Agatha Christie consegue transportar o leitor à um local límpido, fresco e cercado de segredos, deixando-o livre para juntar as peças do quebra-cabeça. Todos os elementos que levam à resolução do mistério estão inseridas na narrativa. Pessoalmente, acredito que essa trama tenha sido uma das mais simples para interligar os pontos, ainda que tenha muitos personagens e um emaranhado de possibilidades. Esse fato, no entanto, não faz com que a história seja menos engenhosa, muito pelo contrário.

A autora também joga luz sobre as pautas de saúde mental e trabalha com isso para trazer ainda mais dúvidas quanto ao assassinato. Alguns elementos, contudo, parecem ser alongados demais na narrativa, como o caso dos problemas conjugais do quarteto Hillingdon e Dyson. 

O momento da revelação final também é, obedecendo os padrões da autora, de tirar o fôlego. Mais do que um mistério fatal, Agatha Christie te convida a embarcar em férias com Miss Marple e envolver-se em uma trama bem construída do início ao fim.

Serviço:

Título original: A Caribbean Mystery

Autor(a): Agatha Christie

Gênero: Romance policial/ Suspense/ Literatura inglesa

Ano de publicação: 1964

Edição atual: Editora Harper Collins, 2020

Sobre o autor

Luisa Pereira

Jornalista, escritora, editora-chefe e criadora do Lindie. Apaixonada por palavras, sempre estive acompanhada de um bloquinho de anotações. Espero um dia conseguir tocar as pessoas do mesmo modo que a Agatha Christie e o Tom Fletcher fazem com suas obras.

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