O centenário de Hercule Poirot e a estreia policial de Agatha Christie

Há 100 anos, em outubro de 1920, Agatha Christie publicava seu primeiro romance policial “O Misterioso Caso de Styles” em formato de livro. Trabalho fruto de uma aposta com a irmã Madge, a agora intitulada “Rainha do Crime”, não esperava uma mudança de vida e rumo literário a partir dessa publicação.

Na época, Christie trabalhava em uma farmácia de um hospital e já possuía uma bagagem grande de conhecimento em venenos. Antes, ela também havia tentado uma empreitada literária na área de romances românticos, mas sem sucesso.

Para provar à irmã que sabia escrever uma história de detetive, Christie começou, em 1916, a elaborar a trama de “O Misterioso Caso de Styles”, enquanto ainda servia como enfermeira na Primeira Guerra Mundial. 

Com muitos refugiados belgas no interior da Inglaterra e em Torquay - cidade onde a autora vivia -, houve a inspiração perfeita para a personificação de Hercule Poirot, seu primeiro e mais famoso detetive.

Apesar da influência de pessoas reais, o personagem não era baseado alguém em particular, mas sim uma mistura de modos, trejeitos e aparência. Tudo foi unido com a imaginação de Agatha Christie.

Inédito por quatro anos, o conteúdo do livro foi remodelado em 1919, quando John Lane, cofundador da Bodley Head Ltd., marcou um encontro com a autora e decidiu veicular a publicação. Outrora, o manuscrito já havia sido recusado por seis editoras.

As mudanças de Lane no conteúdo foram, especificamente, na cena final em que o mistério é revelado por Poirot. Inicialmente em um julgamento, o editor julgou que seria mais interessante colocar todos os personagens em uma biblioteca para o anúncio do detetive.

A cena pensada por Lane tornou-se uma das características marcantes das obras da escritora, sendo repetida em casos de Poirot, como em O assassinato de Roger Ackroyd, A casa do penhasco, Tragédia em três atos, Morte nas nuvens, entre outros. O modo de revelação do mistério é diferente para cada detetive, no entanto. A pacata senhora Miss Marple tem o histórico de confrontar o assassino primeiro e, em seguida, contar aos outros personagens suas descobertas. 

Posteriormente, Agatha revelou sua inocência neste primeiro momento. Aos 30 anos e com ansiedade para adentrar no mundo literário, a escritora assinou o contrato com Lane. Nele, ela publicaria mais cinco títulos pela editora e receberia royalties de 10% apenas quando a meta de 2 mil cópias fossem vendidas. No fim, a publicação rendeu apenas 25 libras à escritora.

Com a morte de Christie, em janeiro de 1976, alguns de seus cadernos foram encontrados e a cena do tribunal, recuperada de seus manuscritos. No Brasil, já há edições em que a finalização do mistério conta com os dois capítulos finais - o do julgamento, feito inicialmente por Agatha Christie e o da biblioteca, proposto por Lane e elaborado pela escritora.

Tamanho foi o sucesso de suas obras que, em 1975, a morte de Hercule Poirot foi anunciada no jornal norte-americano The New York Times. Até hoje, foi a única aparição de um personagem fictício em jornais.

Ao longo de sua trajetória, a escritora publicou 66 romances policiais, 14 coleções de contos e algumas peças. A considerada mais longa do mundo - A Ratoeira - também é de sua autoria. De acordo com o Guinness World Records, Christie é a escritora de ficção mais vendida no mundo, com 2 bilhões de cópias.

Sobre o autor

Luisa Pereira

Jornalista, escritora, editora-chefe e criadora do Lindie. Apaixonada por palavras, sempre estive acompanhada de um bloquinho de anotações. Espero um dia conseguir tocar as pessoas do mesmo modo que a Agatha Christie e o Tom Fletcher fazem com suas obras.

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