Cefa mostra seu lado visceral e destrincha as faces do “Caos”

O ano não está nada fácil. Sem conseguir superar uma crise sanitária, o Brasil também está afogado em uma forte polarização política e entrou, oficialmente, em recessão novamente. Para muitos, 2020 é, sem dúvidas, o ano do caos instalar-se em todas as esferas, até mesmo as sociais e individuais. A banda Cefa também pensa assim. 2020, sem dúvidas, é o ano do Caos.

Formada em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba, a banda passou por algumas mudanças em sua formação e sonoridade ao longo dos oito anos de existência. Integrada atualmente por Caio Weber (vocal), Gabe Oliveira (guitarra), Giovani Gonçalves (baixo) e Bruno Silos (bateria), a Cefa encontra vazão no Caos para liberar seu rock com composições viscerais e confessionais.

Segundo álbum de estúdio do grupo, Caos chega em um momento apropriado musicalmente, apesar de ser lançado cinco anos após o primeiro, "O Fantástico Azul ao Longe" (2015). A discografia da Cefa é formada, ainda, pelo EP de estreia "Os Dias que Antecedem As Rosas" (2012) e a compilação dos singles de 2017 a 2019, intitulada “Alúmen”. 

Planejado e gravado entre 15 e 28 de janeiro, as letras abordam temas ocorridos bem diante dos olhos de todos atualmente, mesmo que tenham sido pensadas antes de toda a situação instalada. “Caos é, no sentido figurado e mais popular da palavra, uma confusão de ideias, um amontoado de coisas que se misturam, a desorganização mental e espacial”, define a banda.

Nas 12 faixas de Caos, o amadurecimento musical do grupo fica evidente nas extensões instrumentais e vocais. Flutuando entre política, homofobia, preconceito religioso, bullying, relacionamentos abusivos e inserindo, em pontos certeiros, as abordagens existencialistas e íntimas, a Cefa faz o ouvinte acelerar e desacelerar na frequência precisa para apreciar o tom do discurso empregado nas letras, puxando-o para dentro do disco.

Caos em todas as esferas

A abertura já é forte e coesa. Literalmente com o pé na porta, os riffs marcantes de “Impulso” começam a ecoar pelos fones, seguidos pela voz madura de Caio. Não à toa tornou-se o primeiro single desta fase. Com viés político, a letra aborda a situação política atual do Brasil e apresenta o primeiro caos retratado. O refrão é o momento de ápice da música, quando os gritos com “chega de ignorar o impulso de acordar. A omissão é conivência”, estouram em sintonia com os demais instrumentos.

O resquício de fôlego restante é gasto na segunda faixa, “Imensidão”, que chega com o mesmo potencial de intensidade, mas com uma apresentação mais comercial, além de apontar uma propensão a ser um grande momento dos shows. Com flexões vocais de primeiro e segundo plano, concentra sua força na letra, que chega ao refrão com o trecho “palavras atravessam almas, causam o estrago de uma bala, mas não podem diminuir a sua imensidão”. 

Para mudar o rumo do caos apresentado nas duas primeiras faixas, “Céu Nublado” surge. A introdução diferente, com influencia eletrônica proporciona uma grata surpresa inicial. Profunda e melancólica, a composição cresce à medida que se encaminha do meio para o fim. “Eu vi muita gente cedendo à escuridão e quase fui embora também” traz o característico tom confessional que a banda já apresenta no seu histórico de trabalhos.

Também single, “Neblina” segue o ritmo das duas últimas, com o eu-lírico em sofrimento. Dessa vez, o caos é instalado por um relacionamento abusivo. Quando os versos “o amor não machuca, ele é a cura, então por que se machucar?” entoam, a dor e a mensagem podem ser percebidas, enquanto a melodia marcante fica ao fundo.

Mais intimista, “Eu Escolhi a Dor” segue mesma linha da faixa anterior, com o eu-lírico sofrendo. Agora, porém, ele consegue romper com a relação - neste caso, não necessariamente romântica. “Ambos me fizeram sangram, mas a dor eu vi cicatrizar, você nunca cicatrizou”, faz referência ao distanciamento entre as pessoas, sejam amigos, parentes ou namorados.

Não Vão Silenciar e “Distorcendo as Palavras” levam o disco novamente ao ponto de partida: forte e político. Nas faixas, o chamamento para a ação política e o apontamento à má interpretação e uso da religião para legitimar discursos de ódio surgem como temáticas.

No bloco final, “Mais Um Dia (parte 2)” explícita o esgotamento do eu-lírico e inicia o ponto mais confessional e existencialistas de Caos. “A Sós” complementa o tom íntimo da anterior e é uma das faixas mais bonitas do álbum, com a profundeza da letra, somada à voz de Caio.

O Que Sobra do Adeus” mescla a letra profunda com a instrumentalização mais presente. O luto transparece quase palpável em meio às notas e frases lançadas. “Se cada lágrima fosse um degrau em uma escada, eu chegaria até o céu e poderia ver você”, proferida nos versos podem, livremente, ser unidas à última faixa, “Desabafo”, tributo ao baterista Raphael Franklin, falecido em 2014. Apenas no violão, Caio canta “se eu fiquei aqui, foi para poder te dizer: apenas não desista de você”.

Por fim, há o feat muito esperado pelos fãs da Cefa. Em parceria com Lucas Silveira, da Fresno, “Solidão” apresenta convergência de frequências, indo do lento ao brutal. O refrão traz todo o tom da canção com “a solidão é companhia, faz a vida ser real” enquanto ao fundo o Lucas canta “eu não me sinto só” e “eu já estou melhor”.

Caos, como define a Cefa, é uma confusão de ideias, um amontoado de coisas. A definição é, o tempo inteiro, presente no álbum, que mescla entre as letras críticas à política, religião, bullying e omissão, com os versos intimistas e a multidão de conflitos internos. Aos fãs ansiosos pelo segundo álbum da banda, o disco cumpre tudo o que se propõe e vai além. Para quem não conhece a Cefa, eis uma boa oportunidade para adentrar na poesia da banda.

Faixas em destaque: Imensidão, Céu Nublado, Mais Um Dia (parte 2), A Sós, O Que Sobra do Adeus e Solidão.

Ouça Caos:

Sobre o autor

Luisa Pereira

Jornalista, escritora, editora-chefe e criadora do Lindie. Apaixonada por palavras, sempre estive acompanhada de um bloquinho de anotações. Espero um dia conseguir tocar as pessoas do mesmo modo que a Agatha Christie e o Tom Fletcher fazem com suas obras.

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