Julie Neff se desprende da raiva e frustração em Over It

Às vezes, a vida imita a arte. Outras, a arte é impulsionada pelos acontecimentos da vida. É isso o que prega a cantora e compositora canadense Julie Neff em seu novo lançamento, o EP Over It, onde descarrega a raiva e frustração das vivências passadas. O projeto age como uma libertação da artista, que se desprende de algumas amarras da sociedade em meio a letras fortes e instrumental alternativo.

“O público espera que as mulheres se expressem com calma, muito educadas, mas é bom falarmos da maneira que queremos. É assim na música também, esse EP é mais forte. Nele, canto quase como para salvar a minha vida”, conta ao Lindie.

Gravado em 2019 no Canadá, o  EP traz seis músicas diversas, com acordes que transitam entre rock, pop, blues e R&B. “Percebi que todas elas falam sobre o mesmo tema, todas falavam sobre o que é realmente importante para mim. Claro, na vida, temos experiências onde aprendemos muito sobre nós mesmos, o que queremos e o que não queremos. Essas músicas representam o momento quando eu sabia claramente o que eu não queria”, explica Julie.

Seu antecessor, Carthasis (2018), mostrou o lado mais íntimo, triste e melancólico de Julie. A força das composições, em contrapartida, foi fortalecida e aprimorada ao longo dos anos. 

A libertação de Julie Neff

A faixa-título e primeiro single, Over It, abre o EP com uma letra e instrumentais fortes. A parte poética traz o esgotamento do eu-lírico, ao mesmo tempo em que ele percebe o momento de deixar essas situações para trás. Como diz a artista: é um momento de epifania.

Os arranjos da canção chamam atenção pela brasilidade. A sonoridade foi alcançada após a proximidade da artista com o Brasil. Julie esteve no país pela primeira vez em 2018, quando se apresentou no festival COMA, depois de conhecer a banda Scalene, em 2017. Entre os amigos brasileiros da artista, a faixa foi apelidada como “forrozinho”. 

Em seguida, Those Dreams - que também já havia sido lançada como single - surge com uma proposta sonora distinta da anterior. O ritmo compassado pelo teclado e bateria marcados, feitos por Charlotte Lytle e Tiz McNamara, respectivamente, dão o tom à temática trazida por Julie. A letra aponta uma reflexão sobre o consentimento das relações e o quão prejudicial é a tomada de decisão com base em suposições e expectativas imaginárias. “Sim, talvez eu tenha sorrido para você do outro lado da sala. / Não significa que vou abraçá-la e chamá-la de minha musa. / Sim, talvez eu te abracei depois do show. / Não significa que estou sozinha e quero ir para casa com você. 

Swagger fala sobre como, às vezes, as aparências são como muros para esconder as inseguranças da vida. Já Siren Call apresenta o sentimento entre uma paixão vivida em uma viagem e a volta à realidade. Essa faixa é, na verdade, uma nova versão da música que fecha o EP anterior, Carthasis (2018).

“Escrevi e gravei uma versão acústica dessa música no final do meu primeiro EP, mas sempre imaginei criar uma versão cinematográfica de Siren Call que realmente refletisse as emoções intensas sentidas nessas situações. Essa nova roupagem nos leva do calor delicado ao hard rock para harmonias atraentes e vice-versa”, ressalta Neff.

What Am I Doing This For? chega com um instrumental forte, com destaque para a guitarra e baixo de Tyler Emond. Nela, a cantora aponta as, ainda latentes, diferenças entre homens e mulheres na sociedade e como, mesmo que potencialmente comemoradas, as melhoras são mínimas. Se não posso beber sozinha. / Se não posso andar para casa sozinha. / Se não posso viver sozinha. / Então para que estou fazendo isso?

A faixa tem o poder de mostrar, ainda mais claramente, a evolução de Julie desde o lançamento de Pick up My Pieces, quando apresentou um trabalho sólido. 

Para finalizar o EP, A Lot Left to Learn propõe um ritmo mais delicado, diferente das faixas anteriores. Na letra, Julie fala sobre o momento de vulnerabilidade que é se entregar a um sentimento por alguém, mesmo que possa não dar certo.

Escritas ao longo de quatro anos e finalizadas em 2019, as faixas demonstram o amadurecimento do pop alternativo de Julie e funcionam como o retorno da artista no cenário musical, tanto no Brasil, como no Canadá.

Ouça Over It:

Sobre o autor

Luisa Pereira

Jornalista, escritora, editora-chefe e criadora do Lindie. Apaixonada por palavras, sempre estive acompanhada de um bloquinho de anotações. Espero um dia conseguir tocar as pessoas do mesmo modo que a Agatha Christie e o Tom Fletcher fazem com suas obras.

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