Lindie

Logo Lindie
Raça é Marcelo Martins, o Popoto (voz e guitarra), Lucas Calmon, o Novato (voz e baixo), Thiago Barros (bateria), João Viegas (voz e teclado) e Santiago Mazzoli (voz e guitarra)

Publicado porFernando Vinícius

em 07/11/2023

Formada por amigos de colégio, a banda Raça iniciou suas atividades em 2012. Nascida em um contexto musical marcado pelo hardcore, o grupo se antecipou às direções que a música underground e midstream tomaria, propondo um estilo particular, ao mesmo tempo pesado e lento, que se apropriava de elementos do hardcore, mas propunha um caminho mais delicado, com letras e sonoridades mais líricas e atmosféricas, mesclando shoegaze, post-rock, dream pop e indie.

Assim, a banda — composta por Marcelo Martins, o Popoto (voz e guitarra), Lucas Calmon, o Novato (voz e baixo), Thiago Barros (bateria), João Viegas (voz e teclado) e Santiago Mazzoli (voz e guitarra) — costurou seu caminho e sedimentou mudanças através de seu EP Ninho (2013) e seu primeiro LP, o intenso Deu Branco (2014), chegando depois ao rock alternativo e introspectivo do álbum Saboroso (2016) e, mais recentemente, ao maduro Saúde (2019), que sintetiza a pluralidade sonora da banda em um microcosmo cinzento, adicionando, à mistura, colorações do jazz.

Agora, com uma década de existência, após anos sem novos lançamentos e com incertezas sobre sua volta aos palcos, a banda Raça retorna com o excelente single 144, disponibilizado ao público hoje, dia 7 de novembro, via Balaclava Records, com produção de Roberto Kramer.

Caminhando em direção ao pop, mas sem esquecer a essência “rockeira” da banda, a faixa medita a respeito da passagem do tempo, das amizades e dúvidas que envolvem a vida adulta, provocando uma sensação leve e ainda assim mal resolvida. E seu videoclipe, a ser lançado em 8 de novembro, dirigido por Guilherme Garofalo, traz releituras do clipe da emblemática música Um Charme, também lançada como single em 2015, num movimento de olhar o passado para pensar sobre o presente.

O frontman da banda, Popoto, falou com exclusividade ao Lindie sobre o lançamento e o evento de promoção do single junto à banda E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, que acontecerá no dia 12 de novembro, na Casa Rockambole. No papo, Popoto também comentou as motivações da composição, a tentativa de resgate da paixão pela música, suas influências, entre outros temas relacionados ao importante momento do Raça.

Ouça a seguir o single 144 e confira o que rolou na conversa:

Banda Raça: autoanálise sobre passado, presente e futuro

Lindie — Vamos começar falando do novo lançamento do Raça, o single 144. É uma música autorreflexiva que aborda a percepção da passagem do tempo e o distanciamento das amizades na vida adulta. O que motivou a escolha desses temas para a faixa e como foi o processo criativo?

Popoto — Assim, a minha escrita é muito literal, ‘tá ligado? E, aí, o que acaba rolando é que eu deixo um pouco aberto pra interpretações e tudo mais. Nesse caso, ela é bem narrativa mesmo.

Eu ‘tava numa situação específica com uma pessoa que tive um desentendimento antes da pandemia, e falei: “ah, pessoalmente eu falo com ele”. Só que, porra, pessoalmente demorou dois anos. E, depois de dois anos, cara, a vida foi rolando, e a galera trabalhando. Enfim, impossível de encontrar as pessoas com quem você tinha desentendimento antes da pandemia. Eu acho que, quem ficou na parada depois da pandemia, foi quem era muito amigo mesmo, ou quem ‘tava trabalhando com você, algo do tipo.

As prioridades mudaram muito nas nossas vidas, né? Eu sinto que tudo ficou meio num estado de sobrevivência, quase literalmente. Eu acho que é engraçado como a gente voltou pra um negócio mais de essência, né... Lógico que fica a saudade, fica um monte de coisa, mas, às vezes, é isso. E as mágoas, depois de tanto tempo, às vezes também somem. Então, é… O tempo ‘tá aí, véi, e existe pra vários lados.

Lindie — E esse processo criativo aconteceu durante todas essas vivências? Ou é mais recente, vindo após ter passado por tudo isso e acumulado essas percepções?

Popoto — Eu fiz durante a pandemia, pelo que eu lembro. Mas eu escrevo pensando a longo prazo normalmente, ‘tá ligado? [Popoto ri] Algumas músicas minhas soam até como previsões, tipo, na minha vida. É como eu enxergo elas, né… Eu deixo um pouco aberto pra imaginação, não é só o que rolou. Mas, quando [estava] escrevendo, eu ‘tava com uma mágoa. A música [144] tem uma certa mágoa. E, hoje em dia, já passou tanto tempo que eu literalmente não lembro por que ‘tava com essas tretas.

Lindie — Não à toa: “Eu já não me lembro por que tanto tempo passou”.

Popoto — É, chega a ser engraçado. É… São de 2022 essas músicas, meio que começo de 2022. Sinceramente, mano… Faz tempo já. [risos]

Lindie — Você disse “essas músicas”. Em um dos últimos shows do Raça, vocês tocaram uma outra inédita. Existem outros lançamentos em vista, como um EP ou um próximo álbum?

Popoto — Cara, então, a gente tem a composição de 16 músicas. E elas já foram gravadas em demos, né. Só que, assim, é a demo da demo da demo. A gente já ‘tá num processo de tentar melhorar elas faz um tempo, até o ponto em que a gente meio que desencanou e falou: “foda-se, vamos lançar o single e depois a gente vê”. Então, o single era pra fazer parte do álbum. O álbum era pra já ter sido gravado.

E a gente, em conversas mais recentes — isso ainda não é um acordo, ‘tá? Mas é uma possibilidade —, ‘tá pensando em pegar essas demos, regravar algumas coisas e lançar o disco nesse formato mais lo-fi mesmo, tipo, feito por nós. E isso é bem interessante, porque é um contraponto com esse lance do single, que é a coisa mais produzida que a gente já fez.

De repente, podemos até lançar esse single da maneira demo com o disco, e o single ser esse mesmo, desse jeito hi-fi. E o resto de um jeito mais feito-em-casa, do jeito que dá. Porque, hoje em dia, o Raça meio que ‘tá… No pós-pandemia, ‘tá em “modo sobrevivência”, né, a gente faz o que dá. [risos]

Lindie — E, voltando para a 144, dá para perceber uma combinação de um pop que vai crescendo e explode em um rock-shoegaze. Eu queria que você falasse sobre o que vocês, como grupo, e você, pessoalmente, tinham como intenção nessa combinação. Se é um tipo de balanço entre as angústias da vida adulta e uma tentativa de leveza frente a essa vida.

Popoto — É… É interessante, isso. A gente fez a música… Na verdade, a demo dela não tem explosão no final. Quem sugeriu isso foi o Roberto Kramer, que produziu a música. Ele colou em um ensaio, se não me engano, que foi um ensaio que antecedeu a gravação do single. E, basicamente, ele deu essa sugestão, de dar essa guitarrada nos refrões.

A gente acatou porque a gente é rockeiro, né, pra caramba. E, pra gente, ‘tava sendo um processo meio radical não ter tanto rock. Mas, por essência, a gente queria uma proposta mais pop mesmo. E ficou bonito, né, porque eu acho que tem toda essa poética do tempo mesmo. Meio que até… Agora brisando junto com você — meio que, no final [da música], lembrar, tipo: “ah, lembrei, a gente é do rock”. [risos]

Lindie — Traz realmente essa sensação de paradoxo: enquanto a letra diz “não lembro”, é feito um resgate de várias lembranças.

Popoto — Que é a essência, né!

Lindie — Por falar em essência: para a gravação do clipe de 144, vocês revisitaram a atmosfera, estética e até a locação do clipe de Um Charme, que é icônico na trajetória do Raça. Qual foi a intenção de vocês com esse olhar ao passado?

Popoto — Cara, assim… Eu falo um pouco de maneira particular. Eu acho que… Esse single, por si só, já é uma tentativa de resgate pessoal da paixão pela música. Porque a gente ‘tava muito afastado, eu e os moleque. A gente mal conversava. É… O som não é uma coisa que ‘tá nas prioridades nas nossas vidas hoje em dia, dizendo de uma maneira geral. Cada um tem o seu trampo e tudo mais. O João [Viegas] ‘tá só na música por enquanto, e espero que continue assim, porque é o que ele faz, né.

E, putz, eu acho que… ‘Tava meio fácil essa temática da nostalgia. Um Charme é um clipe que mostra uma época nossa muito de galera, que é uma coisa que vai sumindo, ou que vai mudando conforme os anos.

Hoje em dia, eu até ‘tava comentando no sábado [28 de outubro], com o João e uns amigos, que a gente já não vê tanta festa em casa. A galera já não ‘tá mais fazendo tanta festa em casa. E é bem engraçado, isso, porque a galera ‘tá mais velha. Em teoria, seria mais fácil, né, mas ninguém tem mais pique de ficar recebendo 40 pessoas em casa pra quebrar tudo. [risos]

E é muito mais fácil você reunir uns 10 amigos ali e fazer um almoço, fazer um negócio à tarde. Hoje em dia, a galera tem filho, tem cachorro, tem família, todo mundo é casado. Não tem mais aquele clima. Então, a ideia do clipe foi meio que… Eu tentei chamar a maioria da galera que participou do anterior, mas, né… A vida vai complicando e é difícil juntar tanta gente.

E, aí, eu chamei meio que os sobreviventes da noite, algumas pessoas que ‘tavam mais… mais no pique pra colar. Da noite, não, né. Da minha vida, véi. É porque eu sou muito da noite. E tinha uma galera que ‘tava disposta a colar de tarde, curtir junto com a gente e trazer um pouco esse clima leve.

Um Charme é mais pesado, tipo… Eu acho o clima denso, as luzes mais escuras. Vermelho e azul. Contrastante. Esse [de 144] é diurno, uma coisa mais “pô, ‘tá tudo bem”, mas, às vezes, com umas coisas mal resolvidas. Enfim, a gente tentou traduzir a brisa que é da música.

E um detalhe: pô, mano, botar criança em videoclipe é muita viagem, velho! Porque, às vezes, a galera não ‘tava nem nascida no clipe de Um Charme, ‘tá ligado? E hoje já ‘tá lá filmando, sabe? Já contribuindo pra um videoclipe. É uma coisa muito louca.

LindieIsso traz realmente uma noção muito louca da passagem do tempo! [risos] E, bem, como está a expectativa de vocês para o evento de lançamento do single, junto à banda E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, na Casa Rockambole?

Popoto — Cara, eu ‘tô muito feliz que vai rolar um show pro Raça. Especialmente com a E A Terra…, que é uma banda que, putz… Eu acho que é um alinhamento muito grande, eles tocarem. É… Eu ‘tô animado. Eu ‘tô com um pouco de receio, pensando se a galera vai realmente colar… Porque, enfim, acho que, tanto pra gente, quanto pra todo mundo, a vida mudou muito, né?

A gente não trabalhou muito em conquistar novo público durante esses anos. A gente não postou, a gente ‘tava totalmente sumido. Então, acho que quem colar, vai ser por muito amor às músicas anteriores, na verdade. Afinal de contas, a gente vai ter meio que sete dias pra conquistar… [risos] novas pessoas pra irem, ou pra reanimar essas pessoas que estão numa vida diferente hoje em dia.

A cultura de colar em show mudou bastante, né? Eu mesmo ia em pelo menos um show por final de semana. Assim, tipo, certo. Eu ia por causa do Breve, que era praticamente minha segunda casa. Breve? É, Breve… Porque agora tem o Bar Alto, que eu também vou bastante. Mas… eu confundo nome.

LindieSim, claro, o lendário Breve! [risos]

Popoto — Exato! E eu ia muito, né. Hoje em dia, eu que sou um apaixonado. Pô, véi, se for fazer uma média [de shows], é… No máximo, um a cada um mês e meio. Então, seria uma sorte muito grande ver que tem gente que ainda vai em show do Raça. Eu ‘tô nesse espírito, meio “mano, tomara que dê certo!”. [risos] Mas, ao mesmo tempo, já deu. Só de tocar, vai ser legal!

LindieAgora, falando sobre a dinâmica atual de criação das músicas entre vocês. O processo costuma partir de canções pessoais que você leva para os meninos desenvolverem o instrumental? Ou tem coisas que vocês começam juntos do zero? Como funciona?

Popoto — Cara, letra é sempre de uma maneira individual. Às vezes, eu mostro no violão a música que eu ‘tô fazendo pra alguém. Aí, essa pessoa vai lá e: “putz, por que você não usa tal palavra?” E eu: “nossa, que legal”. Aí eu colaboro um pouco. Assim, eu sou uma pessoa aberta a escutar opiniões. Só que são temáticas muito pessoais, então acho que todo mundo tem que ‘tá bem alinhado, saber o que ‘tá rolando. E, como a gente ‘tá meio distante, atualmente, não sei se a banda seriam os melhores pra pontuar alguma coisa na minha vida, e na letra.

Mas, assim, é um processo um pouco aberto. Por enquanto, teve poucas trocas em relação a letra. Mas, em relação ao instrumental, seguinte, mano: eu colo lá no estúdio do João [Viegas]. Ele tem um estúdio. E a gente começa gravando por sessões. Eu gravo a guitarra, gravo minha voz e, daí, a gente vai construindo.

A maioria das músicas eu fiz com o João, só. Eu e ele. E o Thiago vem com a bateria depois. O Thiago foi bastante no processo. O Novato vai quando dá. Aí, sim, já tem uma linha de baixo, aí ele vai lá e modifica ela pra ficar mais a cara dele. Cada um vai meio que se adequando. As guitarras do Santiago eu nem boto a mão, porque ele toca do jeito estranho dele lá. Eu dou, talvez, uma sugestão de tema, mas ele é bem livre.

Todo mundo vai contribuindo a partir de uma canção. Esse que é o grande lance. É sempre uma — e mais do que nunca — uma música que já funciona na voz e violão, sabe? Aí, o resto vai sendo construído. O mais importante é melodia e letra.

E acorde, mano… Eu escrevo com um ou dois acordes, ‘tá ligado? Eu não gosto de ficar pensando muito. Aí o João vai lá e fala “mano, faz isso e isso e isso e isso” [Enquanto fala, Popoto simula diferentes e variados acordes em um braço de guitarra imaginário]. Aí, eu falo “ah, beleza”.

Lindie — Interessante. Então, mesmo existindo uma canção como base, também é um processo bem coletivo.

Popoto — É, no final das contas, acaba sendo. Até porque, mano, a parte musical, eu não manjo muito. Eu sou meio acomodado. Eu sinto que faço a minha parte e meio que foda-se o resto, ‘tá ligado? A galera que se vire. Não desse jeito tão individualista. Mas, assim, eu sei que eles manjam melhor do que eu, então também não vou ficar insistindo numa noia minha, num trampo que eu não me dedico tanto.

Lindie Já sobre a questão da sonoridade: durante os primeiros trabalhos do Raça, vocês diziam ter como principais referências a banda Rancore e o Gorillaz. Hoje, com a maturação da sonoridade da banda, quais são as principais influências musicais da banda, tanto as suas, quanto as que você conhece dos outros integrantes?

Popoto — Curiosa essa pergunta… É que… Eu ando escutando muita coisa por causa de letra, ‘tá ligado? Falando por mim, assim. Acho que Marcos Valle, João Donato. São uma galera que escreve de um jeito bacana.

A gente ‘tá meio… Assim, tinha uma época que a gente ia pra casa do Novato, aí ficava todo mundo lá vendo YouTube junto. Era o rolê. A gente ficava tomando uísque, fumando maconha e vendo YouTube. E a gente fazia isso, mano, do meio-dia até a meia-noite, intercalando com uns vídeos de fail compilation. Então a gente era muito alinhado, tipo, em relação a influências.

Hoje em dia, cara, ‘tá muito disperso. Cada um escuta uma coisa. O Santiago eu sei que ‘tá numa pesquisa de bandas da Argentina, por exemplo. O Thiago, cara, não sei o que ele escuta direito. Sei que ele gosta muito do Mike, que é um mano do rap. Mas eu também [escuto rap], o rap sempre ‘tá aí, o Earl [Sweatshirt].

O João escuta, mano, muita música… Eu diria que progressiva, mano… Eu não sei, são umas coisas meio psicodélicas que ele escuta, velho. Meio setentista, oitentista. Eu ‘tô meio perdido. Eu acho que cada um, hoje em dia, meio que ‘tá numa brisa individual, o que é muito legal, na verdade. Isso dá um molho diferente pras influências.

Lindie Sim, claro! E você falou sobre suas referências de letra. Em relação a influências de sonoridade, você tem algumas específicas?

Popoto — Cara, eu meio que travei um pouco… Eu escuto muito King Krule, mano, ‘tá ligado? Umas bandas de rock. Ouço Polara. Ouço… Eu ouço muito rap, mano, o Gustavo Lessa, ouço muito. Tem o… Ah, esse é legal de citar, o dadá Joãozinho, que é um brother que morou aqui em casa um tempinho. Ele acabou de lançar um disco muito foda, que chama tds bem Global. E esse cara me influenciou bastante, assim, é… Ele tem um nível de produção individual muito forte, de começo e fim. Tem que escutar, é uma coisa muito doida, velho.

Acho que esse… Esse impulso de criar novas estéticas sonoras é uma coisa que me influencia muito, não só no sentido da sonoridade. Às vezes, eu nem gosto tanto do som, mas eu gosto da atitude, da ousadia.

Tem umas bandas de rock, tipo uma que chama Show Me the Body, que também é muito legal, que é um rock bem experimental, é… Um punk experimental, é… Cara, eu ‘tô com dificuldade de descrever. Som, pra mim, é muito difícil de descrever, porque eu gosto muito de atitude, ‘tá ligado?

Acho que essa é minha pesquisa no som. Se eu for ouvir alguma música nova, é mais pela atitude do que pela sonoridade. Se eu for ouvir música pra cantar no banheiro, eu só ouço música antiga. Então, acho que manter essas novidades vivas em mim é muito importante na questão de querer fazer música. Acho que isso pode ser mais interessante do que pontuar exatamente um artista. Mas, se fosse pra falar alguém, seria o dadá Joãozinho. Até porque ele morou aqui em casa.

Lindie Sim, [o dadá Joãozinho] foi uma influência no dia a dia. [risos]

Popoto — É! Ele compõe muito no violão. E as músicas dele, véi, não tem nada a ver com o produto final. Ele tocava no ROSABEGE, né. E, nesse processo dele morando aqui em casa, ele começou a criar esse universo mais solo que ‘tá muito incrível.

Lindie Pensando agora na sua carreira mais especificamente, é perceptível que, há algum tempo, você tem se dedicado mais às artes visuais e ao design do que à música. Esse movimento aparece até mesmo na faixa Mó Real, do álbum Saúde: “falta nota, sobra tinta, falha a voz, falha a família”. Tem sido uma dificuldade conseguir a motivação e o apoio necessários para voltar a se dedicar à música?

Popoto — Massa… Então, é… Eu dependo muito dos outros em relação à tecnologia, velho. Eu nunca gravo nada sozinho. Pra mim, sempre tem que ser um negócio coletivo. Na pandemia, mano, fiz muito pouco sozinho. Eu fiz um pouco com o [dadá] João, quando ele ‘tava morando aqui. Mas é isso… Eu sou muito dependente do coletivo pra fazer música. E eu acho que esse negócio de cada um ‘tá trabalhando com coisas individuais — muito mais, né — me atrapalhou um pouco.

Antes eu ‘tava sempre com os moleque da banda. Tipo, a gente era unha e carne. Então a gente ‘tava sempre produzindo e isso influenciava na quantidade de músicas que a gente fazia.

É… Eu acho que eu tenho um pouco essa dificuldade de fazer as coisas sozinho. Nesse sentido, eu sou… É que, agora, parece que eu sou meio vagabundo por falar isso, ‘tá, mas a minha pesquisa não é muito a produção, né… Talvez eu devesse dar uma focada nisso, mas enfim… Eu sou uma pessoa que deixa muito na mão dos outros. No processo da musicalidade, eu gosto muito de escrever e cantar. Então meu foco dentro da música é esse, sabe?

É um pouco sobre isso, assim. Claro que a parte do trampo poderia atrapalhar um pouco. Mas, no meu caso, eu escolhi minha profissão de designer, mais autônomo, já fiz trampo de tattoo, já fiz trampo, sei lá, pintando, mas por uma questão de ter espaço e tempo para a música. Esse sempre foi meu foco, mesmo: a música.

E eu sinto que isso não me atrapalha, na verdade. O que me atrapalha é essa minha dependência dos outros. Por isso que, agora, eu ‘tô fazendo um projeto solo, que já não é solo porque tem a produção do Truno, que inclusive acabou de lançar pela Balaclava.

É bem legal, ele tocava no Marrakesh. Muito bom. E ele ‘tá ajudando com a produção de umas tracks do projeto solo. Mas já vi que, assim… ‘Tô chamando um monte de gente pra participar, sabe? O João mesmo gravou umas baterias e umas teclas pra mim. Eu sou muito coletivo, é por isso que pra mim é tão complicado esse negócio solo.

LindiePensando nisso, então, você diria que a faixa 144 é uma tentativa de reunir todo mundo?

Popoto — É literalmente isso! A gente literalmente gravou o single pra ver se conseguiríamos trabalhar juntos mais alguma vez. [ri] Se conseguiria lançar alguma coisa do começo ao fim… Foi um processo extremamente mais demorado do que a gente achava que seria.

Eu acho que gravamos… Cara, a gente gravou em abril, eu acho. E a gente ‘tá lançando em novembro. Foi um belo tempo também até… Até por mim, mesmo, eu não ‘tô botando a culpa neles não! [risos] ‘Tô falando que eu demorei até pegar o HD pra editar o clipe, porque também tinha que encontrar tal pessoa, que tinha que fazer tal coisa. E esse negócio de encontrar pessoas, hoje em dia, ‘tá muito difícil, ‘tá ligado?

Lindie E, para encerrar, você gostaria de responder alguma pergunta que não fizemos ou deixar uma mensagem?

Popoto — Cara… Eu gostaria de fechar com algum pensamento meio que reflexivo, talvez. Mas acho que já ‘tá tudo na canção. O que a gente conversou ‘tá bem completo nesse sentido de abrir margem a… Sei lá, velho, se identificar, talvez, com todos esses momentos aí que são mais de amizade do que banda, né… Tipo, a banda, no final, sempre foi uma desculpa pra gente curtir a vida junto, pra gente viajar junto e tudo mais.

Então eu acho que… Um conselho é não deixar essas bandas aí morrerem, ‘tá ligado, essas amizades, essas coisas de longa data, e… E, mesmo se elas morrerem, não deixe de acreditar nesse coletivo, nessas amizades, essas novas amizades que se faz durante a vida, essas pessoas que você acaba conhecendo e fazem a diferença. E acho que é isso, uma mensagem de carinho, aí, pra geral.

Compartilhe nas redes sociais:

Você também pode gostar

Logo Lindie

Abra sua mente para novos sons.

© 2020 Lindie. Todos os direitos reservados