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Dupla Anavitória pisa para capa do álbum. Em uma blusa grande, Ana Caetano e Vitória Falcão ficam lado a lado na frente de um fundo amarelo
Dupla Anavitória traz “Cor” com apostas variadas, mas sem sair do conforto
Música

Publicado porLuisa Pereira

em 04/01/2021

Para os fãs do duo Anavitória o ano de 2021 começou com o pé direito e cheio de encanto. O sentimento, é claro, foi proporcionado por Ana Clara Caetano e Vitória Falcão ao anunciarem, no último dia do ano que passou, o terceiro álbum autoral de estúdio, “Cor”, com 14 faixas e as participações de Rita Lee e Lenine, além da produção de Tó Brandileone, do grupo 5 a seco.

Como o nome sugere, as artistas coloriram o primeiro dia do ano com composições tocantes, melancólicas e sentimentais com o “pop rural”, como as mesmas descrevem seu ritmo musical. Para quem esperava que a dupla alçasse novos ares e apostasse em novas variações de estilo, no entanto, o material está longe de abandonar a marca já registrada de Anavitória, mesmo que a dupla experimente maior liberdade artística neste projeto.

Feito inteiramente durante a pandemia, “Cor” contou com o trabalho dos músicos Mari Jacintho, nos teclados; Valmir Bessa, na bateria; Fabio Sameshina, no baixo; Conrado Goys e a portuguesa Maro, no violão e na guitarra; e Will Bone, nos metais. Felipe Roseno, na percussão, trouxe um elemento diferente ao trabalho nas faixas “Amarelo, azul e branco” e “Te amar é massa demais”, com um ritmo acentuado e constante.

"Ter feito esse trabalho no meio da pandemia, foi uma tentativa de enxugar ao máximo e ir pelo caminho da confiança. Foi um processo mais longo que qualquer outro que tenhamos vivido, muito cuidadoso e tudo isso é por conta dessa equipe foda e cheio de amigos do coração. Cada detalhe, nos seus diferentes lugares se somam para termos tudo isso nos ouvidos e olhos de vocês. Um brinde, um salve, um risco de luz no céu a essa gente que brilhou os olhos junto de nós duas e fez o Cor nascer do jeitin (sic) que ele tá", disseram as artistas em uma publicação nas redes sociais.

Formada profissionalmente em 2014, em Araguaína (TO), a dupla Anavitória foi descoberta por Felipe Simas em uma série de vídeos covers postados no Youtube. O primeiro EP da dupla, Anavitória, lançado em 2015, trouxe duas composições autorais, "Singular" e "Chamego Meu", e proporcionou destaque ao duo. No ano seguinte, o primeiro álbum de estúdio - com o mesmo nome do EP - foi apresentado ao público. Pelo trabalho, as artistas receberam a certificação de disco de diamante, vendendo mais de 300 mil cópias, além das duas indicações ao Grammy Latino, em Melhor Canção em Língua Portuguesa por "Trevo (Tu)" - a qual venceram - e Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa.

O segundo álbum da dupla, O Tempo É Agora, foi lançado em 2018 e foi o vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. O sucesso conquistado nos primeiros lançamentos foi, enfim, concretizado com esse trabalho. Com ele, era visível que o duo chegou para ficar. Antes de partir para uma nova era, apresentada agora em Cor, Ana e Vitória também produziram um álbum com regravações de composições de Nando Reis, intitulado N, em 2019.

A perpetuação das letras e sonoridade características da dupla Anavitória

Começar o álbum Cor com a canção Amarelo, azul e branco é algo esperado da poética das artistas. Composta por Ana e Vitória, a primeira faixa aparentemente traz uma pequena biografia da dupla com um tributo à terra natal. Na letra, há os trechos “Meu caminho é novo, mas meu povo não. O norte é a minha seta, o meu eixo, a minha raiz”, cantados pela dupla.

Ao meu passado, eu devo o meu saber e a minha ignorância. As minhas necessidades e as minhas relações. A minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Não sou escrava dele”, proclama Rita Lee, em participação na faixa.

Em seguida, surge Te amar é massa demais, com uma das sonoridades mais distintas do álbum, sendo um ritmo constante e arranjos marcados do samba-reggae. Em paralelo, a letra segue um caminho de boa parte de canções da dupla: aproveitar o momento para amar e ser amado. É possível, ainda, traçar um argumento sobre a afeição em meio à pandemia, quando as pessoas precisaram ficar afastadas fisicamente por conta do isolamento social. Por ser a segunda do disco e percussão alta, similar à anterior, não há sensação de quebra entre as duas primeiras faixas.

Tenta acreditar transporta o ouvinte de volta à tradicional sonoridade de Anavitória, com o coro da dupla em parte da letra, enquanto o instrumental cresce. O momento é responsável por reconfortar os fãs mais assíduos e levá-los ao ambiente de conforto e prazer. Na sequência, Explodir surge com o “folk fofo”, característico do duo, e com a temática apaixonada. “Do amor já disse tanto. Meu coração já passeou em tanta casa. Agora eu vejo que eu nem sabia nada. Amar é mais do que dizer amor. A gente se escolhe todo dia”, bradam na letra.

Cigarra, quinta faixa, é mais leve, conduzida pelo ukelele, violão e uma percussão delicada. Na mesma linha sonora das três anteriores, Selva mantém sua aposta na letra, um poema com rimas em palavras proparoxítonas de aparência charmosa aos ouvintes.

(dia 34) é a faixa de respiro e a única sem a autoria de Ana ou Vitória. Ela funciona como uma introdução de Ainda é tempo. Completa no piano, a faixa é melancólica e ensaia um monólogo profundo, porém seus 1m39s deixam a sensação de algo inacabado.

A faixa seguinte, Eu sei quem é você traz a revolta da separação e decepção amorosa. Esse sentimento é palpável em toda a canção, como nos trechos: "Equívoco te ouvir cantar o amor tão bem. Você o desconhece. Me assusta ver a multidão te aplaudir. E aplaudir de pé. Você nem mesmo se conhece” e “Nem vem dizer pra mim que não foi por querer. Eu sei quem é você. Eu sei quem é você”.

Terra mostra um tipo de arranjo já conhecido e utilizado pela dupla em seu segundo álbum. Como em todo o disco, a dupla se mostra mais madura musicalmente no uso da parte instrumental em equilíbrio com as vozes. Abril é o grito de um apaixonado clamando pela reciprocidade. Ainda que de forma leve, a dupla traz os jogos de palavras à composição. “Eu quero por tudo lhe ver aqui, mas quero o teu peito gritando meu nome”.

Em seguida, Te procuro relembra dos amores que doem no peito. “O nosso amor machuca, eu quero tanto ir embora. Mas eu te procuro. Eu só sei te procurar”. Carvoeiro chega para tentar retomar o fôlego do disco para seu encerramento, com um ritmo mais alegre e arranjos mais marcados entre as vozes. Por fim, Lisboa finaliza Cor, de modo suave e com certa diferença de sonoridade em relação às demais, além da participação de Lenine nos vocais.

Lançado totalmente de surpresa, Cor não é uma inovação no mercado fonográfico ou entre os trabalhos já produzidos pela dupla. No entanto, funciona bem para seu propósito e chega, sobretudo, aos corações doloridos neste tempo tão sombrio.

Faixas em destaque: Te amar é massa demais, Tenta acreditar, Explodir, Eu sei quem é você, Abril e Lisboa.

Ouça Cor:

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